quando recuperei a consciência estavam mil pessoas à minha volta.
não me lembro bem do que se passou antes. não me lembro de nada. lembro-me que gostava de alguém que estava comigo antes de tudo ter acontecido. tive um flash. lembrei-me da tua cara. do teu nome que percorria todos os caminhos que eu fazia a pensar em ti. esses caminhos eram todos os que eu conhecia. por alguns segundos te vi na minha cabeça. estavas ali, tão real como se existisses mesmo ali, à minha frente. quase que te podia tocar, quase que sentia o teu cheiro e o teu calor. acordaram-me para o que estava a acontecer. via pessoas empoleiradas em cima de mim, quase que me viam por dentro. que medo. o meu corpo, que parecia andar aí a flutuar, abriu um espaço por entre essas cabeças tão curiosas. elevou-se ao céu e caiu-me em cima.
nunca nada me doeu tanto. tanto, tanto que me dóiem os braços, as pernas, os pés, a cabeça, as mãos. dói-me tudo. até a alma. chegou alguém que gritou: 'dêem espaço! dêem espaço!' que dor de cabeça, nunca nada me doeu tanto como agora.
olhei para o lado.
tinha-me enganado à pouco.
doía-me mais agora. estavas tu, quem eu vi e quase tive na minha cabeça. estavas tu deitado no chão, ali, sem mexer. estavas tu, deitado, sem sorriso, sem nada. sem reacção alguma.
dói-me muito mais agora. é o máximo que poderei alguma vez sentir. tu já não estavas lá, já não cheiravas a ti, já não me poderias acordar daquele pesadelo. estavam a tentar reanimar-te, e tu nada. nada de nada. o homem tentava perguntar-me alguma coisa. não consegui descodificar. comecei a chorar, mais do que alguma vez conseguira imaginar. queria levantar-me e não conseguia. queria lembrar-me e não conseguia. queria falar e não conseguia. eu só olhava para ti, ali deitado. que dor que sinto. que dor tão grande, tão maior que este céu que, curioso, tenta saber tmabém o que se passa. a dor de perder quem mais amas. e o macaco do homem continuava a tentar, com um dialecto para mim imperceptivel, perguntar alguma coisa. por fim, eu disse: 'ele, salvem-no a ele, por favor. ele.'
o homem parecia não perceber.
e tu, ainda ali, deitado.
espera. que alegria, que bom que já te mexeste! olhas-te para os lados, primeiro para mim, depois para o outro, depois para mim outra vez. sorriste para mim. as dores passaram. sorri-te também. ainda te gritei: ' amo-te.' mas tu pareces-te não ouvir. que se passa? estavas a chorar. que foi, que se passou? tentei falar, não consegui. já não sentia dores, já não sorria, já não ouvia nada. eu estava concentrada em ti, na razão da tua tristeza. e, depois, vi-te rastejar até mim. a tocar-me com as tuas mãos que nunca tinham estado tão quentes. senti-te a por a tua cara no meu peito. senti as tuas lágrimas a escorrerem pela minha camisola encharcada em sangue. não senti o acelarar do meu coração. não senti a cara a corar como sempre me acontecia. não consegui mexer o braço, que já não me doía, para te fazer uma festa nos cabelos, como sempre fiz, e não consegui dizer que ia ficar tudo bem. olhaste-me nos olhos, ainda abertos e humidos. eu quis dizer-te que te amo, mas a natureza não deixou. quis beijar-te, mas não tive forças.
olhaste-me uma última vez: 'amo-te', disseste-me.
e levaram-te de mim. o teu calor que já não consegui sentir. o teu cheiro que já não consegui cheirar. as tuas palavras que consegui ouvir, mas que não consegui retribuir. levaram-me a vida. deixaram-me ali, sob aquele céu tão azul durante um pouco. as pessoas dissiparam. trouxeram o temível saco preto e fecharam-me lá dentro. juntamente com a minha roupa ensanguentada, juntamente com tudo o que guardava nos bolsos, tudo o que tinha em mente, tudo o que tinha em mim.
morri, finalmente morri.
terei mais um começo, com meus dentes no chão.
quem conhce, sabe.