a nossa casa é tão linda, meu amor.
pois já não sei que voltas dei pela cidade mas, a meio da manhã, quando ia telefonar a avisar que ia almoçar, eu vi.
eu vi.
e escusavas de negar porque eu tinha visto com os meus olhos. deu me uma dor no coração, pensei que ia morrer. eu vi-te com alguem, não sei quem, mas eu vi-te. eu nem tinha palavras para aquilo. eu pensava que me amavas. começou a crescer-me uma nuvem de pensamentos confusos e contraditórios por cima da minha cabeça. só tive uma reacção: sair dali. corri a outro lugar, o mais longe que consegui, deixando tudo para trás. já nem te liguei. e, depois, à hora de almoço, volto a casa, cheira bem. mas tu ainda tens o descaramento de vir ter comigo, sorridente. pois, sei lá eu à quanto tempo é que aquilo dura! ainda esperavas um beijo meu.foi aí que eu disse: 'não és mulher para mim, eu mereço bem melhor, não?' não respondes-te porque eu não dei tempo. ' foi bom enquanto durou mas agora chega, porque não estou mais para isto, tu não prestas mesmo.'
comecei a ver as lágrimas a descer-te pela cara, as minha também já travavam uma luta bem grande, não podia dar parte fraca. subi as escadas antes mesmo de piscares os olhos. abri gavetas, portas, e sentia, a cada porta e gaveta que abria, que era uma tesourada que dava na nossa ligação. pus tudo o que era nosso numa mala e tudo passou a ser meu unicamente.
o que eu levei é meu, o que ficou é teu.
quando desci continuavas no mesmo sitio, parada, como se eu nem sequer tivesse de lá saído. cheguei a pensar que estavas a gozar comigo. comecei a falar novamente e a tua falta de reacção enerveva-me. berrei a ver se me ouvias, mas nem assim notei mudança.passei por ti rapidamente, não queria prolongar o sofrimento, arrastei a minha mala com as nossas, minhas coisas pelo nosso alpendre, pelas nossas escadas. parei para fazer uma festa ao cão do vizinho que devia ter fugido mais uma vez. nem sequer tive coragem para olhar para trás.
nunca mais olhei para trás.